Sentidoteca

Lápis Raro
Abri curiosao céu.Assim, afastando de leve as  cortinas.Eu queria entrar,coração ante coração,inteiriçaou  pelo menos mover-me um pouco,com aquela parcimônia que caracterizavaas  agitações me chamandoEu queria até mesmosaber ver,e num  movimento redondocomo as ondasque me circundavam, invisíveis,abraçar  com as retinascada pedacinho de matéria viva.Eu  queria(só)perceber o invislumbrávelno levíssimo que  sobrevoava.Eu queriaapanhar uma braçadado infinito em luz que a  mim se misturava.Eu queriacaptar o impercebidonos momentos  mínimos do espaçonu e cheioEu queriaao menos manter descerradas  as cortinasna impossibilidade de tangê-lasEu não sabiaque virar  pelo avessoera uma experiência mortal.
Ana Cristina Cesar(1952-1983)
Foto: http://www.flickr.com/photos/tiagolima/2359282999/
enviado por Giuliana Xavier.

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

Foto: http://www.flickr.com/photos/tiagolima/2359282999/

enviado por Giuliana Xavier.